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CRÔNICA VENCEDORA NA ETAPA MUNICIPAL DA OLIMPÍADA DE LÍNGUA PORTUGUESA

ALUNA: MAIRLA MARINA FEREIRA DIAS
SÉRIE: 1º A   ENSINO MÉDIO

NAS MÃOS DO DONO DO MUNDO

O sinal tocou.
Era hora de começar a se amontoar próximo ao portão de acesso às salas de aula. A menina logo entendeu a mensagem.
O portão abriu-se.
Ao cruzar a porta da sala de aula, uma expressão de surpresa surgiu em sua face. Uma atmosfera diferente ocupava aquele lugar, substituindo a indisposição típica de uma segunda-feira por uma agitação incomum.
Risos, risos e mais risos. O ambiente estava contagiado por altas gargalhadas. A menina também sentiu vontade de rir, mas lhe parecia insensato seguir os colegas, já que ela não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo. A curiosidade a invadiu de tal maneira, a ponto de fazê-la expremer-se próximo à janela, na tentativa de conseguir ver o que se passava. “Será que alguém pode me dizer do que vocês estão rindo?”. A resposta veio em gestos: várias mãos apontadas para ele. Só então pôde compreender o motivo de tamanha agitação.
Era o Severino! Aquele corte de cabelo... Realmente era engraçado: nada mais, nada menos que o topete do Neymar se apresentava em meio aquela calvície parcial. A meia careca do Severino tinha formado uma cratera no penteado. Realmente, à primeira vista era uma cena hilária, que fez a menina embarcar nas risadas dos colegas.
Imediatamente, porém, seus valores morais falaram mais alto, e o riso deu lugar à reflexão. A algazarra dos colegas continuou soando distante e a sua imaginação foi desviada para a história de vida daquele homem. Somente ela foi capaz de ver aquela cena com outros olhos e comover-se com as condições em que ele se encontrava. Exceto o cabelo, nada em Severino parecia estar em bom estado. Suas roupas, além de rasgadas, possuíam uma sujeira visível. As unhas há muito não viam uma tesoura. Os pés, descalços e ressecados, pareciam duas ameixas secas. O semblante, um misto de inocência e inconsciência, fruto da deficiência mental que o marcava há anos.
A menina se perguntou como podia um ser humano viver daquele modo. Mal sabia que a vida que ele levava era fruto do desprezo de sua família, que o abandonou em uma das fases mais delicadas de sua vida, quando a loucura o dominou.
Era comum, as pessoas perguntarem a ele, com um tom de ironia na voz: “Severino, quem é teu pai?” Ao que ele prontamente respondia: “Meu pai? É o dono do mundo.” Quem era o dono do Mundo? Ninguém sabia...
A voz da professora determinou o final da agitação e interrompeu a onda de pensamentos da menina. Foi difícil concentrar-se na aula. Quando buscou o pátio com o olhar, Severino não estava mais lá. Por onde ele andaria naquele momento?
Agora, a turma estava em silêncio. No seu íntimo, a menina gritava, suplicava para que algo fosse feito, exigia uma mudança. Como poderia um de nós viver em tais condições, contando apenas com a própria sorte? Sendo alvo de chacota?
Além de louco, Severino sempre viveu na mais completa pobreza, sem teto, sem chão, sem saúde, sem pão. Será que simplesmente as almas boas do lugar oferecerem uma refeição seria o suficiente para Severino? Onde estaria o direito básico à saúde e à moradia? Danem-se os direitos humanos! Quem vive em uma sociedade egoísta não pode contar com a ajuda de ninguém para aliviar seu sofrimento. Como diria aquele homem: “o dono do mundo é quem me guarda.” Frase um tanto filosófica proferida por alguém que pensamos ser totalmente insano. Para ele, o dono do mundo seria Deus?
Os devaneios da menina persistiram até o final da aula.
Era finalzinho de tarde. O sol escondia-se por trás das serras. Aquele friozinho, que invade os rincões do sertão nessa época do ano, chegava junto com as estrelas. Ao transpor os portões da escola, a menina viu ao longe novamente a figura de Severino que certamente procurava um lugar para passar a noite. Sentia-se frágil e incapaz de fazer alguma coisa, a não ser prestar a solidariedade assistencialista praticada por todos do lugar.
Então só lhe restou observar para onde o vento levaria aquela figura comovente e hilariante; até onde aqueles pés descalços conseguiriam caminhar pela estradinha de terra.
A imagem daquele homem desaparecendo em direção ao poente ficou para sempre na mente daquela menina, que até hoje deseja que “o dono do mundo” nunca se esqueça dele.




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