SÉRIE: 1º A ENSINO MÉDIO
NAS MÃOS DO DONO DO MUNDO
O sinal tocou.
Era hora de
começar a se amontoar próximo ao portão de acesso às salas de aula. A menina
logo entendeu a mensagem.
O portão
abriu-se.
Ao cruzar a
porta da sala de aula, uma expressão de surpresa surgiu em sua face. Uma
atmosfera diferente ocupava aquele lugar, substituindo a indisposição típica de
uma segunda-feira por uma agitação incomum.
Risos, risos e
mais risos. O ambiente estava contagiado por altas gargalhadas. A menina também
sentiu vontade de rir, mas lhe parecia insensato seguir os colegas, já que ela
não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo. A curiosidade a invadiu de
tal maneira, a ponto de fazê-la expremer-se próximo à janela, na tentativa de
conseguir ver o que se passava. “Será que alguém pode me dizer do que vocês
estão rindo?”. A resposta veio em gestos: várias mãos apontadas para ele. Só
então pôde compreender o motivo de tamanha agitação.
Era o
Severino! Aquele corte de cabelo... Realmente era engraçado: nada mais, nada
menos que o topete do Neymar se apresentava em meio aquela calvície parcial. A
meia careca do Severino tinha formado uma cratera no penteado. Realmente, à
primeira vista era uma cena hilária, que fez a menina embarcar nas risadas dos
colegas.
Imediatamente,
porém, seus valores morais falaram mais alto, e o riso deu lugar à reflexão. A
algazarra dos colegas continuou soando distante e a sua imaginação foi desviada
para a história de vida daquele homem. Somente ela foi capaz de ver aquela cena
com outros olhos e comover-se com as condições em que ele se encontrava. Exceto
o cabelo, nada em Severino parecia estar em bom estado. Suas roupas, além de
rasgadas, possuíam uma sujeira visível. As unhas há muito não viam uma tesoura.
Os pés, descalços e ressecados, pareciam duas ameixas secas. O semblante, um misto de inocência e
inconsciência, fruto da deficiência mental que o marcava há anos.
A menina se
perguntou como podia um ser humano viver daquele modo. Mal sabia que a vida que
ele levava era fruto do desprezo de sua família, que o abandonou em uma das
fases mais delicadas de sua vida, quando a loucura o dominou.
Era comum, as
pessoas perguntarem a ele, com um tom de ironia na voz: “Severino, quem é teu
pai?” Ao que ele prontamente respondia: “Meu pai? É o dono do mundo.” Quem era
o dono do Mundo? Ninguém sabia...
A voz da
professora determinou o final da agitação e interrompeu a onda de pensamentos
da menina. Foi difícil concentrar-se na aula. Quando buscou o pátio com o
olhar, Severino não estava mais lá. Por onde ele andaria naquele momento?
Agora, a turma
estava em silêncio. No seu íntimo, a menina gritava, suplicava para que algo
fosse feito, exigia uma mudança. Como poderia um de nós viver em tais
condições, contando apenas com a própria sorte? Sendo alvo de chacota?
Além de louco,
Severino sempre viveu na mais completa pobreza, sem teto, sem chão, sem saúde,
sem pão. Será que simplesmente as almas boas do lugar oferecerem uma refeição
seria o suficiente para Severino? Onde estaria o direito básico à saúde e à
moradia? Danem-se os direitos humanos! Quem vive em uma sociedade egoísta não
pode contar com a ajuda de ninguém para aliviar seu sofrimento. Como diria
aquele homem: “o dono do mundo é quem me guarda.” Frase um tanto filosófica
proferida por alguém que pensamos ser totalmente insano. Para ele, o dono do
mundo seria Deus?
Os devaneios
da menina persistiram até o final da aula.
Era finalzinho
de tarde. O sol escondia-se por trás das serras. Aquele friozinho, que invade
os rincões do sertão nessa época do ano, chegava junto com as estrelas. Ao transpor
os portões da escola, a menina viu ao longe novamente a figura de Severino que
certamente procurava um lugar para passar a noite. Sentia-se frágil e incapaz
de fazer alguma coisa, a não ser prestar a solidariedade assistencialista
praticada por todos do lugar.
Então só lhe
restou observar para onde o vento levaria aquela figura comovente e hilariante;
até onde aqueles pés descalços conseguiriam caminhar pela estradinha de terra.
A imagem
daquele homem desaparecendo em direção ao poente ficou para sempre na mente
daquela menina, que até hoje deseja que “o dono do mundo” nunca se esqueça
dele.
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