Mata Atlântica, março de 2011.
Caros Humanos,
Permitam-me que inicie esta carta fazendo uma ligeira apresentação. Sou uma árvore da Mata Atlântica: um Jequitibá-patriarca.
Por várias décadas estou aqui. Antes, éramos muitas, eu e as outras árvores. O verde era dominante na paisagem. Era lindo.
Nunca cheguei a ver o mar, mesmo tão próximo, sequer ouvia o barulho das ondas quebrando, batendo contra as rochas, nem mesmo vi as areias da praia, mas, ainda assim podia sentir a brisa marinha passando pelas minhas folhas como uma sinfonia ao vento.
Tudo se resumia à harmonia, algo que se foi depois que sua raça chegou, derrubando-nos à machadadas para abrir caminho aos arranha-céus e moradias. Imagine a dor de sermos arrancadas da terra.
Vocês mataram muitas de nós, e, mesmo assim continuamos á purificar o ar que vocês, humanos respiram. Formando a ciliar impedíamos as enchentes e se não fosse por nós a camada de ozônio da terra estaria totalmente prejudicada.
Mas são vocês que dominam a terra. Vocês podem e devem fazer alguma coisa para nos ajudar. Não podemos fugir quando um de vocês vem para nos atacar.
Imagine se nós, as árvores, fôssemos vingativas como vocês. Chegaríamos a suas casas, tiraríamos vocês de lá, destruiríamos seus lares, suas famílias, tiraríamos sua paz.
Seria uma guerra implacável, inevitável, onde nenhum dos lados iria vencer, apenas teríamos perdas. Nós só podemos existir e existindo acabamos beneficiando-os, sem cobrar nada em troca, embora recebamos sua violência e ingratidão, nós também deveríamos exigir um alto preço de vocês. Isso me lembra que não posso me mexer. A própria natureza é que causa as reações em mim. É algo involuntário, mas estamos bem com tal condição, ao contrário de vocês, que podem ter tudo, mas a nada dão valor, apenas quando, por intromissão do destino, algo lhe é arrancado.
Cabe a vocês humanos, decidirem o que farão em relação a nós, sei que muitos de vocês tentam conscientizar o resto da espécie sobre nossa importância para o planeta e a vida nele existente, também sei que muitos não dão à mínima.
Reafirmo-lhes: sem as árvores não só o ar estaria comprometido, como também a trama de ações que os fazem dependerem da natureza, a terra na qual são produzidos inúmeros tipos de alimentos ficaria infértil, impossibilitando seu cultivo, seus rios ficariam tão poluídos que não existiria vida neles. O lixo iria ocupar o espaço terrestre por completo, e o que restaria dele?
Bom, se estão em dúvida sobre como nos ajudar, dou-lhe uma dica: mostre esta carta a todas as pessoas que puderem encontrar. Planejem idéias, ações que contribuam para nossa preservação, implantem normas para a exploração das florestas. Uma raça que tem domínio de tão alta tecnologia poderia usá-la em prol da natureza. Faça do hoje o amanhã e tome uma atitude. É urgente!
Grato,
Jequibá-patriarca
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